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O que uma árvore consegue revelar quando é medida todos os dias

A árvore cresce em anos, mas responde ao ambiente em horas.

Por Esthevan Gasparoto 7 min de leitura
O que uma árvore consegue revelar quando é medida todos os dias

No inventário tradicional, o crescimento de um talhão aparece como a diferença entre duas medições, geralmente separadas por um ano ou mais. Esse número é confiável e indispensável para planejamento. O que ele não mostra é o caminho entre os dois pontos: se o crescimento foi contínuo ou parou por três meses na seca, se a retomada veio logo após as primeiras chuvas ou demorou semanas, se um clone sofreu mais que outro no mesmo período.

Com dendrômetros eletrônicos registrando o diâmetro do tronco várias vezes por dia, esse caminho passa a ser observado. O ganho, porém, depende de saber ler o sinal. Boa parte do que o sensor registra ao longo de um dia não é crescimento, e tratar cada oscilação como ganho ou perda de madeira leva a conclusões erradas.

O tronco encolhe e incha todos os dias

O diâmetro de uma árvore não é constante ao longo do dia. Pela manhã, quando a copa começa a transpirar, a demanda de água supera o que as raízes conseguem repor, e a árvore usa a água armazenada nos tecidos do tronco. O fuste contrai. À tarde e à noite, com a transpiração menor, o tronco se reidrata e volta a expandir. Em um estudo com dendrômetros de ponto em Eucalyptus globulus, esse ciclo foi dividido em três fases: contração, recuperação e incremento, este último correspondendo ao ganho entre um máximo diário e o seguinte (Drew et al., 2008). Só a terceira fase representa crescimento. As duas primeiras são movimentação de água.

A ordem de grandeza ajuda a entender o problema. Em progênies de Eucalyptus benthamii monitoradas em Santa Catarina, o crescimento radial médio diário ficou em torno de 2,5 µm na família mais lenta e 3,3 µm na mais rápida durante a primavera, e o crescimento ocorreu principalmente em dias nublados (Higa et al., 2007). São valores pequenos, frequentemente menores que a contração causada pela transpiração em um dia quente e seco. Sem tratamento, o dado bruto mistura as duas coisas.

O momento do crescimento também chama atenção. Uma rede suíça com sete espécies temperadas e cerca de 57 milhões de registros horários mostrou que déficit de pressão de vapor (VPD) elevado limita fortemente o crescimento do tronco, que acontece pouco durante o dia, com exceção do início da manhã (Zweifel et al., 2021). Nessas espécies, boa parte do crescimento do tronco ocorre à noite.

Como separar água de crescimento

A abordagem mais usada hoje na literatura parte de uma ideia simples. Enquanto o tronco estiver abaixo do maior diâmetro já registrado, considera-se que a árvore está recuperando água, e não crescendo. Só conta como crescimento o que ultrapassa esse máximo anterior.

Dessa regra saem duas séries:

  • Crescimento (GRO): a expansão irreversível do tronco, acumulada a cada novo máximo.
  • Déficit hídrico da árvore (TWD): a distância entre o diâmetro atual e o último máximo, que funciona como um indicador contínuo do estado hídrico.

Essa lógica é chamada de conceito de crescimento zero. Zweifel e colegas compararam essa hipótese com outra que supunha crescimento linear durante os períodos de tronco contraído. O conceito de crescimento zero gerou taxas mais coerentes com a fisiologia, e os autores concluíram que quase não há crescimento enquanto o tronco está encolhido (Zweifel et al., 2016). A base fisiológica é que as células do câmbio só se expandem quando estão túrgidas, então um déficit hídrico prolongado bloqueia o crescimento radial (Frontiers in Plant Science, 2024).

Na prática, isso tem duas consequências para quem analisa os dados. A primeira é que uma queda no diâmetro durante a seca indica tronco desidratado, sem perda de madeira. A segunda é que o crescimento só volta a ser registrado quando o tronco recupera a água perdida e supera o máximo anterior, o que pode levar dias ou semanas depois da chuva.

O que a série mostra sobre seca e chuva

Com o sinal separado, a série diária passa a contar coisas que nenhuma campanha anual registra: quando o crescimento parou, quanto tempo ficou parado, com que rapidez a árvore respondeu à primeira chuva e quanto tempo levou para recuperar o ritmo.

Um experimento com Eucalyptus grandis no Brasil mostra bem esse tipo de leitura. Os pesquisadores excluíram 80% da chuva que chegava ao solo durante 37 meses e acompanharam as árvores com dendrômetros de alta resolução temporal e com medições periódicas. No período de exclusão, a taxa de crescimento em área basal caiu 73% e a de altura, 95%, em comparação com o controle. Mesmo assim, as árvores sob estresse reagiam rapidamente a cada evento de chuva (Chambi-Legoas et al., 2022).

O resultado mais interessante veio depois. Quando a exclusão terminou e a água voltou ao normal, as árvores que tinham passado pela seca cresceram 97% a mais em área basal que as do controle, enquanto em altura a diferença foi de apenas 8% (Chambi-Legoas et al., 2022). Nos 31 meses de recuperação, as árvores recuperaram 51% da área basal perdida e apenas 5% da altura, sem nenhuma mortalidade. Uma campanha anual registraria uma queda e depois uma recuperação. A série mostra o desenho completo: a parada, as respostas pontuais a cada chuva e a velocidade da retomada.

Para o setor, esse tipo de informação tem uso direto:

  • comparar clones ou famílias sob o mesmo evento de seca, avaliando quem para antes e quem retoma mais rápido;
  • identificar talhões em que o déficit hídrico se prolonga mais que nos vizinhos;
  • avaliar se uma intervenção, como adubação ou controle de matocompetição, mudou a resposta da árvore ao estresse;
  • dar à prognose informação sobre o ano corrente, em vez de esperar o próximo inventário.

Da leitura diária à decisão

Ninguém precisa olhar dados a cada 15 minutos para decidir uma colheita. O valor do monitoramento contínuo aparece quando o sinal bruto é transformado em indicadores na escala certa para cada pergunta.

Dois cuidados fazem diferença nessa transformação. O primeiro é a representatividade. Um sensor mede uma árvore, e a inferência para o talhão depende de quantas árvores são monitoradas, de como foram escolhidas e de quanto o talhão varia. O segundo é o contexto meteorológico. A mesma contração tem significados diferentes em um dia de VPD alto e em uma semana sem chuva, e a leitura fica muito mais segura quando a série do tronco é analisada junto com dados de clima.

Como a Treevia trabalha esses dados

Os dendrômetros IoT da Treevia registram a variação diamétrica de forma contínua e enviam os dados para o SmartForest, onde a série de cada árvore fica ligada ao cadastro do talhão e ao histórico de inventários. A camada analítica consolida o sinal em indicadores diários, semanais e mensais, o que permite acompanhar tendências sem depender da leitura ponto a ponto. Com isso, a prognose pode ser confrontada com o crescimento observado ainda dentro do ano, sem esperar a campanha seguinte.

Para fechar

O inventário continua sendo a base para saber quanta madeira existe e para calibrar qualquer outra fonte de dados. O monitoramento diário cobre o intervalo entre campanhas e mostra como a floresta chegou ao número medido. Para quem planeja colheita, avalia clones ou precisa explicar uma queda de produtividade, conhecer esse caminho ajuda a tomar decisões com menos suposições.

Referências

  • Chambi-Legoas, R.; Tomazello Filho, M.; Guedes, F. T. P.; Chaix, G. (2022). High growth recovery ability of Eucalyptus grandis trees following a 3-year period of 80% throughfall reduction. Forest Ecology and Management, 503, 119766.
  • Drew, D. M. et al. (2008). Daily patterns of stem size variation in irrigated and unirrigated Eucalyptus globulus. Tree Physiology, 28(10), 1573-1581.
  • Higa, A. R. et al. (2007). Effects of weather and genetics on intra-annual stem growth of Eucalyptus benthamii. Epagri.
  • Zweifel, R.; Haeni, M.; Buchmann, N.; Eugster, W. (2016). Are trees able to grow in periods of stem shrinkage? New Phytologist, 211(3), 839-849.
  • Zweifel, R. et al. (2021). Why trees grow at night. New Phytologist, 231(6), 2174-2185.
  • Frontiers in Plant Science (2024). Estudo sobre crescimento radial, fluxo de seiva e déficit hídrico em Douglas-fir.
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