IMA e ICA contam histórias diferentes sobre a mesma floresta (Parte 1)
A floresta pode ter uma boa média e, ao mesmo tempo, estar crescendo menos a cada ano.
Em muitas reuniões de planejamento florestal, um único número resume o desempenho de um talhão: o IMA. "Esse talhão está com 42 m³/ha/ano" soa como uma informação completa. E, em parte, é. O Incremento Médio Anual é o indicador de produtividade mais consolidado do setor, permite comparar áreas, materiais genéticos e regiões, e está na base de praticamente todo plano de suprimento.
O problema aparece quando o IMA é lido como se dissesse o que está acontecendo agora com a floresta. Ele não diz. O IMA é uma média de tudo o que o povoamento acumulou desde o plantio. Ele carrega a memória dos bons anos e reage devagar quando o ritmo muda.
Para saber em que velocidade a floresta está crescendo neste momento, é preciso olhar para outro indicador: o Incremento Corrente Anual, o ICA. Os dois são calculados a partir das mesmas medições, usam a mesma unidade e, por isso, são frequentemente tratados como sinônimos. Mas eles respondem a perguntas diferentes. E a distância entre essas duas respostas é, muitas vezes, onde está a informação mais útil para a decisão.
Dois indicadores, duas perguntas
O IMA responde: quanto, em média, este povoamento produziu por ano desde o plantio? É o volume acumulado dividido pela idade.

O ICA responde: quanto o povoamento cresceu no último ano? É a diferença entre o volume em duas idades consecutivas.

Na prática, raramente há medições anuais exatas. Entre duas campanhas de inventário separadas por mais de um ano, calcula-se o incremento periódico anual (IPA), que é o crescimento do período dividido pelo número de anos. Ele funciona como uma aproximação do ICA naquele intervalo, e quanto mais longo o intervalo, mais ele suaviza as variações dentro dele.
A diferença essencial está na memória de cada indicador. O IMA olha para todo o passado do povoamento: um ano ruim aos seis anos de idade pesa apenas um sexto no resultado. O ICA olha só para o período recente: o mesmo ano ruim aparece inteiro. Por isso o IMA é estável e bom para comparar ativos, e o ICA é sensível e bom para perceber mudanças de ritmo.
Uma analogia ajuda. O IMA é a velocidade média de uma viagem desde a saída. O ICA é o velocímetro. Um carro pode ter uma média alta e estar freando agora, e a média só vai refletir isso alguns quilômetros depois.
Um exemplo: média alta, ritmo em queda
Considere um povoamento hipotético de eucalipto clonal, com volume projetado por um modelo de crescimento sigmoide, típico de plantios de rápido crescimento.
Aos 5 anos, o IMA de 37,3 m³/ha/ano é o mais alto já registrado pelo talhão. Um relatório baseado apenas nele mostraria uma floresta em plena melhora. O ICA, porém, conta outra história: o crescimento corrente atingiu o pico aos 4 anos e já começou a cair.
Aos 7 anos, a diferença fica ainda mais clara. O IMA de 36,6 m³/ha/ano continua próximo do máximo e ainda parece um ótimo resultado. Mas, naquele ano, o povoamento acrescentou cerca de 31 m³/ha, aproximadamente 15% abaixo da própria média. A floresta não piorou de repente: ela simplesmente entrou na fase em que cada ano adicional rende menos do que os anteriores, e a média leva tempo para mostrar isso.
Os valores são ilustrativos. A forma das curvas, porém, se repete em povoamentos reais: o ICA sobe rápido, culmina cedo e cai, enquanto o IMA sobe mais devagar, atinge o máximo depois e desce de forma suave.
O cruzamento das curvas e a rotação biológica
Há uma relação matemática simples entre os dois indicadores: enquanto o ICA está acima do IMA, a média sobe; quando o ICA cai abaixo do IMA, a média começa a cair. É o mesmo princípio de uma média de notas: uma nota acima da média a puxa para cima, uma nota abaixo a puxa para baixo.
A consequência é que as curvas se cruzam exatamente no ponto de máximo do IMA. Essa idade é chamada de rotação biológica ou rotação de máxima produtividade volumétrica: é o momento em que o povoamento entregou o maior volume médio por ano de ocupação da terra.
No exemplo, esse ponto fica por volta dos 6 anos. Antes dele, cada ano adicional melhora a produtividade média. Depois dele, a floresta continua acumulando madeira, mas cada novo ano rende menos do que a média histórica, e o IMA passa a descer.
Dois cuidados são importantes nessa leitura:
- O ICA começa a cair bem antes do cruzamento. No exemplo, o pico do ICA ocorre aos 4 anos. Entre os 4 e os 6 anos, o IMA ainda sobe enquanto o crescimento corrente já desacelera. Quem olha só para o IMA vê uma floresta melhorando quando o ritmo já está diminuindo.
- A curva ao redor do máximo costuma ser achatada. O IMA aos 5, 6 e 7 anos varia menos de 1 m³/ha/ano. Isso significa que a rotação biológica raramente é um ponto rígido: há uma janela em que outros critérios, especialmente econômicos e operacionais, devem pesar mais.
Também vale lembrar que a idade do cruzamento depende da variável usada. Curvas de volume total, volume comercial com casca ou volume de um sortimento específico (por exemplo, toras acima de um diâmetro mínimo) atingem o máximo em idades diferentes. Em florestas destinadas a serraria, o IMA do sortimento de maior valor costuma culminar mais tarde do que o IMA do volume total.
Uma média alta descreve um bom passado
O IMA continua sendo a referência para comparar ativos e planejar a base florestal. O ponto é não lê-lo como algo que ele não é. Ele carrega a memória de todos os anos do povoamento; o ICA mostra o ritmo de agora.
Na Parte 2, vamos à prática: como usar a leitura conjunta para comparar talhões, avaliar tratamentos e perceber efeitos do clima, quais cuidados o ICA exige e por que nenhum dos dois decide sozinho a idade de corte.
Leia também no blog da Treevia:
• IMA e ICA na prática: o que a leitura conjunta revela (Parte 2)