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Quanto custa descobrir dois anos depois que sua floresta produziu menos que o esperado?

Uma análise de como o atraso na identificação de perdas de produtividade pode ampliar a exposição financeira e operacional de uma siderúrgica com base florestal.

Por Esthevan Gasparoto 6 min de leitura
Quanto custa descobrir dois anos depois que sua floresta produziu menos que o esperado?

Em uma siderúrgica integrada à base florestal, produtividade não é apenas um indicador silvicultural. Ela influencia quanto de madeira estará disponível para carbonização, quanto carvão poderá ser produzido e quanto da necessidade industrial poderá ser atendida pela própria base florestal.

O problema, portanto, não começa quando falta carvão no pátio da usina. Ele pode começar anos antes, quando a floresta passa a crescer abaixo do projetado e essa diferença demora a entrar no planejamento.

Em 2024, o Brasil produziu aproximadamente 6,68 milhões de toneladas de carvão vegetal provenientes da silvicultura, movimentando cerca de R$ 7,96 bilhões. Minas Gerais respondeu por aproximadamente 5,6 milhões de toneladas, ou 83,3% desse volume. Nesse contexto, diferenças aparentemente pequenas na produtividade de grandes bases florestais podem assumir dimensão industrial.

A produtividade que está no planejamento precisa existir no campo

Segundo a IBÁ, a produtividade média do eucalipto brasileiro foi de 34,4 m³/ha.ano em 2024, para uma idade média de 6,8 anos. Entre os estados analisados, os valores variaram aproximadamente entre 20,0 e 41,3 m³/ha.ano.

Essa amplitude reforça um princípio importante: produtividade não é uma constante. Material genético, disponibilidade hídrica, clima, solo, mortalidade, manejo e idade alteram a trajetória de crescimento.

O planejamento, porém, precisa transformar essa dinâmica em uma expectativa de volume futuro.

De forma simplificada:

volume futuro = área × produtividade × tempo

O risco aparece quando a produtividade considerada no planejamento continua sendo uma enquanto a floresta real já segue outra trajetória.

Quanto 5% representam em uma base de 10 mil hectares?

Considere uma operação hipotética com 10.000 hectares, utilizando como referência a produtividade média brasileira de 34,4 m³/ha.ano.

Suponha agora que o crescimento realizado esteja 5% abaixo do projetado e que essa diferença só seja identificada dois anos depois.

EtapaCálculoResultado
Área analisada-10.000 ha
IMA projetado-34,40 m³/ha.ano
Redução considerada34,40 x 5%1,72 m³/ha.ano
IMA realizado34,40 - 1,7232,68 m³/ha.ano
Volume Projetado por ano10.000 x 34,40344.000 m³
Déficit anual10.000 x 1,7217.200 m³
Déficit em dois anos17.200 x 234.400 m³
Equivalente regulatório de carvão34.400 x 0,7726.488 MDC
Exposição a R$ 360/MDC26.488 x 360R$ 9,54 milhões
Exposição a R$ 375/MDC26.488 x 375R$ 9,93 milhões

*Foi utilizado como referência o fator regulatório adotado pelo IEF-MG para produtos de florestas plantadas de eucalipto, de 0,77 MDC para cada m³ de madeira. Esse fator não deve ser interpretado como rendimento industrial específico de uma unidade de carbonização.

Os preços de R$ 360 a R$ 375/MDC utilizados na simulação correspondem a referências divulgadas pelo Governo de Minas Gerais em 2025 para carvão vegetal de florestas plantadas entregue à siderúrgica.

O valor calculado também não representa necessariamente uma perda financeira de R$ 9,9 milhões. Ele indica uma exposição potencial de reposição, caso todo o carvão equivalente ao volume de madeira ausente tivesse de ser comprado externamente nessa faixa de preço.

O percentual é pequeno. O volume acumulado não necessariamente é

O mesmo exercício pode ser aplicado a diferentes desvios, mantendo a base de 10 mil hectares e dois anos até a identificação.

DesvioMadeira a menos/anoMadeira a menos em 2 anosCarvão equivalenteExposição a R$ 360/MDCExposição a R$ 375/MDC
3%10.320 m³20.640 m³15.893 MDCR$ 5,72 miR$ 5,96 mi
5%17.200 m³34.400 m³26.488 MDCR$ 9,54miR$ 9,93 mi
10%34.400 m³68.800 m³52.976 MDCR$ 19,07 miR$ 19,87 mi

Esses percentuais são cenários de sensibilidade, não taxas típicas de erro ou perda do setor.

A tabela demonstra outra coisa: em grandes bases, um desvio que parece pequeno quando expresso em percentual pode assumir outra dimensão quando convertido em m³ de madeira, MDC de carvão e valor potencial de reposição.

Descobrir tarde reduz as alternativas

Um déficit identificado com antecedência ainda pode ser incorporado à prognose, ao plano de corte, à estratégia de compra e ao planejamento de estoques.

Quando aparece próximo ao período de consumo, o mesmo volume passa a exigir respostas mais reativas.

Possível RespostaConsequência Operacional
Comprar madeira ou carvãoMaior exposição ao preço de mercado e à disponibilidade de fornecedores
Aumentar o raio de suprimentoElevação do custo logístico e maior complexidade de transporte
Antecipar talhõesAntecipar talhões Resolve parte da necessidade atual, mas retira volume do planejamento futuro
Reprogramar colheitaAltera sequência, idade de corte e fluxo futuro de matéria-prima
Consumir estoques reguladoresReduz a margem de segurança para eventos posteriores

O efeito financeiro, portanto, não está somente no volume que deixou de crescer.

Está também nas decisões que passam a ser necessárias para compensá-lo.

A literatura sobre produção de carvão reforça a importância dessa logística. Em um estudo econômico de sistemas de carbonização, a inclusão do transporte reduziu em 37% o VPL do sistema analisado. Os valores monetários do estudo são históricos, mas o resultado evidencia a sensibilidade econômica da cadeia à distância.

Madeira disponível não significa automaticamente carvão disponível

Existe ainda uma segunda camada de variação.

Mesmo conhecendo o volume de madeira, a produção efetiva de carvão depende de densidade, umidade, material genético, tecnologia de forno, temperatura e controle da carbonização.

Estudo com clones comerciais de Eucalyptus em fornos retangulares encontrou** rendimento gravimétrico médio de 34,1%**, dentro de uma faixa de 32% a 35% considerada satisfatória para o sistema avaliado.

Por isso, o planejamento de uma siderúrgica a carvão vegetal precisa conectar várias etapas:

crescimento da floresta → madeira disponível → carbonização → carvão disponível → demanda industrial

Um desvio na primeira etapa pode se propagar por toda a cadeia.

O tempo de detecção também precisa entrar na conta

Do ponto de vista de gestão, talvez a variável mais importante não seja apenas o tamanho do desvio, mas quanto tempo a empresa leva para percebê-lo.

No exemplo utilizado:

Um desvio de 5% identificado rapidamente e o mesmo desvio identificado dois anos depois têm o mesmo percentual.

IndicadorResultado
Crescimento abaixo do projetado5%
Tempo sem incorporação ao planejamento2 anos
Déficit acumulado34.400 m³
Carvão equivalente26.488 MDC
Exposição potencial de reposiçãoR$ 9,54 a R$ 9,93 milhões

Mas não oferecem à empresa o mesmo espaço de reação.

Reduzir o intervalo entre a mudança e a decisão

O inventário florestal continua sendo fundamental para estimar estoque, produtividade e crescimento com consistência estatística.

O monitoramento contínuo acrescenta outra dimensão: resolução temporal.

Sensores dendrométricos podem criar séries de comportamento entre campanhas, permitindo acompanhar tendências e identificar alterações persistentes antes da próxima medição convencional.

Na arquitetura da Treevia, essas informações podem trabalhar de forma complementar:

CamadaPapel na gestão
InventárioQuantifica e atualiza a referência do estoque.
Sensores IoTAcompanham o comportamento da floresta entre campanhas.
SmartForestMantém histórico, dados e rastreabilidade das revisões.
PrognosePermite avaliar como uma mudança de crescimento altera os cenários futuros de volume e abastecimento.

O objetivo não é interpretar cada oscilação diária do diâmetro como crescimento. Parte dessa variação é fisiológica e está relacionada à dinâmica hídrica da árvore.

O valor está em identificar tendências persistentes e desvios entre o comportamento observado e o esperado, reduzindo o intervalo entre o momento em que a floresta começa a mudar e o momento em que essa mudança entra no planejamento.

Em uma siderúrgica com base florestal, esse intervalo pode separar um ajuste planejado de uma compra emergencial.

Por isso, a pergunta não deveria ser apenas:

“Quanto a floresta está produzindo?”

Mas também:

“Quanto tempo levaríamos para descobrir se ela deixasse de produzir o que está no nosso planejamento?”

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