Quanto custa descobrir dois anos depois que sua floresta produziu menos que o esperado?
Uma análise de como o atraso na identificação de perdas de produtividade pode ampliar a exposição financeira e operacional de uma siderúrgica com base florestal.
Em uma siderúrgica integrada à base florestal, produtividade não é apenas um indicador silvicultural. Ela influencia quanto de madeira estará disponível para carbonização, quanto carvão poderá ser produzido e quanto da necessidade industrial poderá ser atendida pela própria base florestal.
O problema, portanto, não começa quando falta carvão no pátio da usina. Ele pode começar anos antes, quando a floresta passa a crescer abaixo do projetado e essa diferença demora a entrar no planejamento.
Em 2024, o Brasil produziu aproximadamente 6,68 milhões de toneladas de carvão vegetal provenientes da silvicultura, movimentando cerca de R$ 7,96 bilhões. Minas Gerais respondeu por aproximadamente 5,6 milhões de toneladas, ou 83,3% desse volume. Nesse contexto, diferenças aparentemente pequenas na produtividade de grandes bases florestais podem assumir dimensão industrial.
A produtividade que está no planejamento precisa existir no campo
Segundo a IBÁ, a produtividade média do eucalipto brasileiro foi de 34,4 m³/ha.ano em 2024, para uma idade média de 6,8 anos. Entre os estados analisados, os valores variaram aproximadamente entre 20,0 e 41,3 m³/ha.ano.
Essa amplitude reforça um princípio importante: produtividade não é uma constante. Material genético, disponibilidade hídrica, clima, solo, mortalidade, manejo e idade alteram a trajetória de crescimento.
O planejamento, porém, precisa transformar essa dinâmica em uma expectativa de volume futuro.
De forma simplificada:
volume futuro = área × produtividade × tempo
O risco aparece quando a produtividade considerada no planejamento continua sendo uma enquanto a floresta real já segue outra trajetória.
Quanto 5% representam em uma base de 10 mil hectares?
Considere uma operação hipotética com 10.000 hectares, utilizando como referência a produtividade média brasileira de 34,4 m³/ha.ano.
Suponha agora que o crescimento realizado esteja 5% abaixo do projetado e que essa diferença só seja identificada dois anos depois.
| Etapa | Cálculo | Resultado |
| Área analisada | - | 10.000 ha |
| IMA projetado | - | 34,40 m³/ha.ano |
| Redução considerada | 34,40 x 5% | 1,72 m³/ha.ano |
| IMA realizado | 34,40 - 1,72 | 32,68 m³/ha.ano |
| Volume Projetado por ano | 10.000 x 34,40 | 344.000 m³ |
| Déficit anual | 10.000 x 1,72 | 17.200 m³ |
| Déficit em dois anos | 17.200 x 2 | 34.400 m³ |
| Equivalente regulatório de carvão | 34.400 x 0,77 | 26.488 MDC |
| Exposição a R$ 360/MDC | 26.488 x 360 | R$ 9,54 milhões |
| Exposição a R$ 375/MDC | 26.488 x 375 | R$ 9,93 milhões |
*Foi utilizado como referência o fator regulatório adotado pelo IEF-MG para produtos de florestas plantadas de eucalipto, de 0,77 MDC para cada m³ de madeira. Esse fator não deve ser interpretado como rendimento industrial específico de uma unidade de carbonização.
Os preços de R$ 360 a R$ 375/MDC utilizados na simulação correspondem a referências divulgadas pelo Governo de Minas Gerais em 2025 para carvão vegetal de florestas plantadas entregue à siderúrgica.
O valor calculado também não representa necessariamente uma perda financeira de R$ 9,9 milhões. Ele indica uma exposição potencial de reposição, caso todo o carvão equivalente ao volume de madeira ausente tivesse de ser comprado externamente nessa faixa de preço.
O percentual é pequeno. O volume acumulado não necessariamente é
O mesmo exercício pode ser aplicado a diferentes desvios, mantendo a base de 10 mil hectares e dois anos até a identificação.
| Desvio | Madeira a menos/ano | Madeira a menos em 2 anos | Carvão equivalente | Exposição a R$ 360/MDC | Exposição a R$ 375/MDC |
| 3% | 10.320 m³ | 20.640 m³ | 15.893 MDC | R$ 5,72 mi | R$ 5,96 mi |
| 5% | 17.200 m³ | 34.400 m³ | 26.488 MDC | R$ 9,54mi | R$ 9,93 mi |
| 10% | 34.400 m³ | 68.800 m³ | 52.976 MDC | R$ 19,07 mi | R$ 19,87 mi |
Esses percentuais são cenários de sensibilidade, não taxas típicas de erro ou perda do setor.
A tabela demonstra outra coisa: em grandes bases, um desvio que parece pequeno quando expresso em percentual pode assumir outra dimensão quando convertido em m³ de madeira, MDC de carvão e valor potencial de reposição.
Descobrir tarde reduz as alternativas
Um déficit identificado com antecedência ainda pode ser incorporado à prognose, ao plano de corte, à estratégia de compra e ao planejamento de estoques.
Quando aparece próximo ao período de consumo, o mesmo volume passa a exigir respostas mais reativas.
| Possível Resposta | Consequência Operacional |
| Comprar madeira ou carvão | Maior exposição ao preço de mercado e à disponibilidade de fornecedores |
| Aumentar o raio de suprimento | Elevação do custo logístico e maior complexidade de transporte |
| Antecipar talhões | Antecipar talhões Resolve parte da necessidade atual, mas retira volume do planejamento futuro |
| Reprogramar colheita | Altera sequência, idade de corte e fluxo futuro de matéria-prima |
| Consumir estoques reguladores | Reduz a margem de segurança para eventos posteriores |
O efeito financeiro, portanto, não está somente no volume que deixou de crescer.
Está também nas decisões que passam a ser necessárias para compensá-lo.
A literatura sobre produção de carvão reforça a importância dessa logística. Em um estudo econômico de sistemas de carbonização, a inclusão do transporte reduziu em 37% o VPL do sistema analisado. Os valores monetários do estudo são históricos, mas o resultado evidencia a sensibilidade econômica da cadeia à distância.
Madeira disponível não significa automaticamente carvão disponível
Existe ainda uma segunda camada de variação.
Mesmo conhecendo o volume de madeira, a produção efetiva de carvão depende de densidade, umidade, material genético, tecnologia de forno, temperatura e controle da carbonização.
Estudo com clones comerciais de Eucalyptus em fornos retangulares encontrou** rendimento gravimétrico médio de 34,1%**, dentro de uma faixa de 32% a 35% considerada satisfatória para o sistema avaliado.
Por isso, o planejamento de uma siderúrgica a carvão vegetal precisa conectar várias etapas:
crescimento da floresta → madeira disponível → carbonização → carvão disponível → demanda industrial
Um desvio na primeira etapa pode se propagar por toda a cadeia.
O tempo de detecção também precisa entrar na conta
Do ponto de vista de gestão, talvez a variável mais importante não seja apenas o tamanho do desvio, mas quanto tempo a empresa leva para percebê-lo.
No exemplo utilizado:
Um desvio de 5% identificado rapidamente e o mesmo desvio identificado dois anos depois têm o mesmo percentual.
| Indicador | Resultado |
| Crescimento abaixo do projetado | 5% |
| Tempo sem incorporação ao planejamento | 2 anos |
| Déficit acumulado | 34.400 m³ |
| Carvão equivalente | 26.488 MDC |
| Exposição potencial de reposição | R$ 9,54 a R$ 9,93 milhões |
Mas não oferecem à empresa o mesmo espaço de reação.
Reduzir o intervalo entre a mudança e a decisão
O inventário florestal continua sendo fundamental para estimar estoque, produtividade e crescimento com consistência estatística.
O monitoramento contínuo acrescenta outra dimensão: resolução temporal.
Sensores dendrométricos podem criar séries de comportamento entre campanhas, permitindo acompanhar tendências e identificar alterações persistentes antes da próxima medição convencional.
Na arquitetura da Treevia, essas informações podem trabalhar de forma complementar:
| Camada | Papel na gestão |
| Inventário | Quantifica e atualiza a referência do estoque. |
| Sensores IoT | Acompanham o comportamento da floresta entre campanhas. |
| SmartForest | Mantém histórico, dados e rastreabilidade das revisões. |
| Prognose | Permite avaliar como uma mudança de crescimento altera os cenários futuros de volume e abastecimento. |
O objetivo não é interpretar cada oscilação diária do diâmetro como crescimento. Parte dessa variação é fisiológica e está relacionada à dinâmica hídrica da árvore.
O valor está em identificar tendências persistentes e desvios entre o comportamento observado e o esperado, reduzindo o intervalo entre o momento em que a floresta começa a mudar e o momento em que essa mudança entra no planejamento.
Em uma siderúrgica com base florestal, esse intervalo pode separar um ajuste planejado de uma compra emergencial.
Por isso, a pergunta não deveria ser apenas:
“Quanto a floresta está produzindo?”
Mas também:
“Quanto tempo levaríamos para descobrir se ela deixasse de produzir o que está no nosso planejamento?”